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29 de ago. de 2013

SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DESISTE DE PROPOSTA ALTERNATIVA À REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL.



Créditos Yuri Kiddo, do Promenino com Cidade Escola Aprendiz

Na tarde de 14 de agosto, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), em conjunto com o Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), realizou um ato no Congresso Nacional em defesa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) contra a redução da maioridade penal. A Câmara de Deputados ficou cheia, especialmente de crianças e adolescentes, além de representantes de organizações não governamentais que marcaram a data com o tema "Em defesa do ECA". Aquele movimento deixava claro para os parlamentares que as propostas de redução da idade penal que tramitam no Congresso Nacional não atendem às expectativas da sociedade civil organizada.

“Existem 19 projetos de lei dentro do Congresso que pedem a redução da maioridade penal. A sociedade civil, representada pelas instituições que trabalham no movimento pela infância e juventude, é veemente contra qualquer proposta reducionista”, afirma o coordenador geral do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Rildo Marques. “Essa proposta lotaria mais ainda as unidades da Fundação Casa, não resolvendo o problema da violência, pelo contrário, faria com que aumentasse ainda mais”.

A última novidade sobre o tema foi uma proposta sobre Responsabilização Progressiva de Adolescentes Autores de Ato Infracional, que foi motivo de discussões a partir de 12 de julho em âmbito federal, no Conanda, e entre diversos movimentos de defesa e proteção dos direitos de crianças e adolescentes.

A proposta de Responsabilização Progressiva foi elaborada a pedido da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), com apoio técnico do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), como uma alternativa aos projetos sobre redução da maioridade penal, com objetivo de ampliar o tempo de internação dos adolescentes autores de ato infracional. Com isso, ao cometer uma infração considerada grave, a Justiça permitiria que o adolescente pudesse ser internado na Fundação Casa por até oito anos, de acordo com a idade. Veja na tabela abaixo.

Idade
Tempo de internação
Entre 12 e 13 anos 
Mínimo de 1 ano e 6 meses e máximo de 3 anos; 
Entre 13 e 14 anos 
Mínimo de 2 e máximo de 4 anos; 
Entre 14 e 15anos 
Mínimo de 2 anos e 6 meses e máximo de 5 anos;  
Entre 15 e 16 anos 
Mínimo de 3 e máximo de 6 anos;  
Entre 17 e 18 anos 
Mínimo de 4 e máximo de 8 anos;  

Quase um mês depois, em assembléia do Conanda naquele mesmo 14 de agosto, o Governo Federal desistiu do projeto. O MNDH foi o responsável por apresentar no Conselho documento com mais de 100 páginas contrário à proposta da Responsabilidade Progressiva, que ajudou a fazer com que a proposta caísse. A proposta não andou por que o governo se demonstrou “sensível ao posicionamento contrário da sociedade civil à responsabilidade progressiva”, segundo declaração da assessoria da SDH à reportagem do Promenino.

“A prioridade do Governo Federal mantém-se em sensibilizar a todos contrariamente à redução da maioridade penal, bem como concluir o Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo e assegurar uma política de melhorias nas instituições voltadas às medidas de meio fechado e qualificação do meio aberto, bem como a capacitação dos servidores que trabalham nas instituições”, afirmou a SDH.

Efetividade do ECA

Mas o debate deve continuar, não apenas da maioridade penal, mas de disputa pela reforma do ECA.Pelo Estatuto, a medida socioeducativa atualmente prevê a internação de, no máximo, três anos, e quem determina a pena é sempre um conjunto de decisões acertadas entre educadores, Ministério Público e Judiciário.

O documento da responsabilização progressiva defendia, como justificativas, a necessidade de alterar a Lei nº 8.069/90 do ECA (que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências).

O argumento era o de que o ECA teria sido elaborado há algum tempo, o documento é de 1990. O ECA “desconsidera completamente o desenvolvimento progressivo e contínuo da maturidade ocorrido durante a adolescência, estabelecendo um sistema único de responsabilidade infracional a ser imposto a todos os adolescentes infratores que cometerem atos mediante violência e grave ameaça à pessoa ou reiteração no cometimento de outras infrações graves, com previsão genérica da possibilidade de internação pelo período máximo de 3 anos”, explica um dos membros elaboradores da proposta de Responsabilização Progressiva, o advogado João Saraiva.

Ele diz que “o debate oferece uma perspectiva para mudar o foco da discussão, retirando esse olhar obtuso da redução da maioridade penal e trazendo o foco no âmbito do direito da criança no sentido de verificar níveis distintos de responsabilização do adolescente, que tem sua autonomia conquistada progressivamente”.Saraiva propõe uma reflexão em torno do modelo que o Estatuto estabeleceu em 1990, que, para ele, “não tem dado a resposta de confiança normativa e necessária. Isso tem causado um prejuízo à efetividade dos direitos da criança porque coloca em cheque a eficácia do ECA”.


De acordo com Saraiva, que defende a proposta de responsabilização progressiva, o Estatuto tem vários níveis de operacionalidade. “Um deles diz respeito à educação, saúde, transporte, políticas públicas, lazer. Essa parte tem sido suficientemente satisfeita? Não, não tem”.

Por outro lado, há um problema quando o sistema protetivo que envolve a atuação dos conselhos tutelares enquanto organismos de garantia de direitos não é satisfatório. “Ninguém apresenta alternativas para prevenção à violência, sempre são para repressão. E a repressão não traz hoje concretamente nenhum dado de recuo da violência, ao contrário, a quantidade de violência vem crescendo. Ninguém fala de medidas de prevenção, que é a primeira parte do Estatuto da Criança e do Adolescentes”, defende o coordenador geral do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Rildo Marques.

Quando se questiona a efetividade do ECA, pouco se faz na prática para garantir e proteger direitos, além da aplicação de medidas socioeducativas, segundo Marques, que usa o exemplo das duas rebeliões que ocorreram em São Paulo, na semana do dia 14 de agosto. “Certamente essas rebeliões são para provocar, na sociedade, esse apelo da redução da maioridade contra os meninos. Uma Fundação que procura fazer a reeducação desses jovens não tem rebelião, quando isso acontece é porque o governo está fazendo tudo errado”.
Para ele, a solução seria investir em políticas públicas de qualidade. “O caminho é que o governo do Estado, por exemplo, o de São Paulo, invista em políticas de educação efetivas, saúde, cultura, sobretudo na periferia”.

Responsáveis pela violência

Existe um discurso que tenta justificar a redução da maioridade penal ou o aumento da pena para adolescentes por considerar que os jovens são os grandes responsáveis pela violência no país. Porém, um estudo do Ministério da Justiça revelou que, em 2011, os crimes com morte representaram 10,3% dos atos infracionais cometidos por adolescentes, enquanto 43,7% dos meninos e meninas que cumprem medidas socioeducativas cometeram atos infracionais sem o uso de violência, como furto, por exemplo.

A juventude no Brasil morre muito mais do que mata. Os assassinatos cometidos por adolescentes em conflito com a lei equivalem a menos de 1% de todos os crimes cometidos no país, diz pesquisa do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente (Illanud). Já o Mapa da Violência de 2012 aponta que os jovens representam 67,1% das vítimas de armas de fogo no país.

Já o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos e a Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) avaliam que a cada três mortos por arma de fogo dois estão na faixa dos 15 a 29 anos, e que o número de negros assassinados é 133% maior que o de brancos, em todas as faixas etárias. “Isso mostra a falha do Estado de não promover uma cultura de igualdade e de paz. Ao contrário, promove uma cultura desigual e autoritária, e a população desinformada não vê outras formas e alternativas, acha que com a redução da maioridade penal a violência vai ser reduzida. É um erro que os meios de comunicação ajudam a fomentar, sem aprofundamento”, reflete o coordenador do MNDH.

Ainda de acordo com o Mapa da Violência 2012, o Brasil é o 4º país entre 99 pesquisados que mais mata crianças e adolescentes no mundo, com taxa de 44,2 por cem mil, ficando atrás apenas de El Salvador, Venezuela e Trinidade e Tobago. 


23 de jan. de 2013

PRIORIDADE ESQUECIDA




Assessora política do Inesc parceiro KNH Brasil aborda, em artigo publicado pelo Correio Braziliense, a questão da redução da idade penal que tornou a ter destaque por causa da crise na segurança pública, acentuada no final do ano passado.

Cleomar Manhas, doutora em educação e assessora política do Inesc 
(artigo publicado pelo Correio Braziliense e Estado de Minas)
Em 2013 queremos que os adolescentes estejam visibilizados e contemplados nas políticas públicas e não criminalizados como estão hoje, com tantas propostas de retirada de direitos, direcionadas a esta parcela da sociedade, que, de acordo com a Constituição Federal, tem prioridade absoluta com relação à ação do Estado. Vejamos o que diz o artigo  227: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
Ao chegarmos a mais um final de ano é comum renovarmos nossas esperanças e planos para o ano vindouro. Isso em âmbito pessoal, no entanto, quando atuamos para que as políticas públicas se desenvolvam tendo como parâmetro a realização de direitos humanos, renovamos esperanças coletivas relacionadas às políticas sociais.
Em momentos difíceis há sempre “bodes expiatórios” escolhidos para justificarem as tensões. A crise do momento, capitaneada por São Paulo, diz respeito à segurança pública. Aliás, não se pode dizer que é a do momento, visto que desde o advento do crescimento exponencial das grandes cidades, ainda na década de 1980, o tema está em questão. E agora com uma novidade para os brasileiros, ela não se restringe aos tradicionais centros tais como São Paulo e Rio de Janeiro. A violência acompanhou a tendência de descentralização dos pólos de desenvolvimento econômico e está em lugares ainda não acostumados a sua presença. E os “bodes expiatórios” são os adolescentes, para os quais há vários projetos em tramitação no Congresso Nacional solicitando a redução da idade penal.
O mapa da violência de crianças e adolescentes 2012, pesquisa realizada pela Flacso, sob a responsabilidade do professor Júlio Jacobo Waiselfisz,   apresentou dados alarmantes acerca da violência sofrida por crianças e adolescentes na faixa etária compreendida entre 0 e 19 anos. O Brasil ocupa o 4º lugar em um conjunto de 99 países, com maiores índices de homicídios nesta faixa etária, com crescimento de 346% entre 1980 e 2010. Sendo os adolescentes entre 14 e 18 anos as maiores vítimas.
A partir desta pesquisa podemos inferir que os adolescentes são parcela da população fortemente vitimada pela violência, especialmente, homicídios, com estatísticas preocupantes e em  total confronto com os princípios de direitos humanos. No entanto, o que vemos, tanto na mídia, quanto no Parlamento e em parte da sociedade é a criminalização desta parcela da população, ao invés de estarem refletindo sobre esses números que demonstram uma verdadeira epidemia.
Outro aspecto relevante diz respeito à educação. Apesar de o acesso à educação fundamental estar praticamente universalizado, no percurso entre esta etapa e o ensino médio a educação pública vai perdendo público. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2011, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a quantidade de adolescentes de 15 a 17 anos longe dos bancos escolares aumentou. Em 2009, 1.479.000  brasileiros nessa faixa etária não estudavam. Eles representavam 14,8% dessa população. Em 2011, o número de excluídos subiu para 1.722.000 (16,3% dos 10,5 milhões de jovens).
De acordo com estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA),   acerca do Plano Nacional de Educação,  que está em votação no Congresso Nacional e guiará a política nos próximos dez anos, a faixa etária entre 15 a 17 anos será o maior desafio para a universalização da educação, visto o grande número de excluídos do sistema. E o desafio, ainda de acordo com o estudo, não diz respeito apenas à ampliação de vagas, mas também na garantia de permanência e progressão dos estudantes ao longo do ensino fundamental, de modo que ingressem, a partir dos 15 anos, no ensino médio e concluam a educação básica.
Os motivos de termos  expressivo número  de adolescentes fora da escola são vários e vão desde a falta de qualidade da educação, passando por  vulnerabilidades tais como o trabalho infantil, gravidez na adolescência, falta de transporte escolar, falta de acessibilidade para adolescentes com deficiência entre outros, que em comum têm o fato de serem  passíveis de resolução por meio de políticas públicas assertivas e integradas.
Muito se fala da necessidade de integração de políticas, mas pouco se faz, pois cada órgão público com seus gestores está sempre em busca da autoria e do protagonismo e não conseguem operar, de fato, em parceria. Porém, para os adolescentes é urgente que se ofereça um conjunto de políticas articuladas que incluam educação, saúde, cultura, Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, segurança pública, dentre outras que atuem de maneira sistematizada.
Há um enorme aparato legal de garantia de direitos dos adolescentes, tais como,  convenções internacionais, Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e por aí vai. Portanto, o que precisamos é que de fato elas se materializem em políticas que realizem plenamente os direitos humanos.